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A Estranha

Me lembro do primeiro smartphone com tela sensível ao toque como se fosse ontem. Era o iPhone, lançado em 2007. Aquele pequeno retângulo brilhante mudou tudo. Depois dele, os celulares começaram a engolir o mundo — cada novo modelo trazia mais funções, mais possibilidades, mais distrações.

Fotos. Armazenamento. Contatos. Mensagens. Vídeos. Internet. Filmes. Mais internet.

Eu nunca fui fotogênica. Mas os aplicativos começaram a mudar isso. E foi aí que conheci meu primeiro grande amor: Snapchat.
Os filtros sabiam exatamente o que esconder — o nariz que eu achava grande demais, a boca que parecia torta, os olhos sempre cansados.
Logo depois veio o Snow. Ainda mais ferramentas. Mais controle. Mais versões de mim que eu podia aperfeiçoar. E assim, sem perceber, comecei a ficar conhecida.

As curtidas subiam como mágica: 10, 20, 50, 100, mil.
Cada foto vinha acompanhada de elogios: “Como você é linda.”
Seguidores. Compartilhamentos. Notoriedade.
Mas nos eventos… eu nunca ia. Não podia, porque eu não era “a menina da internet”.

O espelho — o espelho não mentia.
Ele devolvia o reflexo de alguém que eu não reconhecia.
Uma menina estranha. Feia. Nariz grande, bochechas de Fofão, olhos apagados, cabelos cheios de frizz.
Essa menina me encara sempre que tento me olhar de verdade.
E eu me pergunto: quem é ela? E por que insiste em aparecer?

Na câmera, pelo menos, eu sou quem eu construí.
Linda. Perfeita. Amável.
Na câmera, eu sou quem eu quero ser.

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