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Marionete

Como Pinocchio, eu queria ser uma pessoa de verdade. Cuidadosamente criado pelo Gepetto em cada mínimo detalhe: dos pezinhos às articulações, roupas e linhas. Uma marionete perfeita que, junto com o grilo, sua consciência, se transformou em um belo menino com um pai que já o amava, mesmo enquanto era apenas um boneco.
Ao contrário do Pinocchio, meu criador não teve tanto amor ao me fabricar. Sempre cheirava a cigarro e álcool enquanto trabalhava em mim. Era apático e impaciente, e seus olhos carregavam um cansaço misturado com desprezo. Com inveja do Gepetto, ele queria criar uma marionete melhor, maior, mais esperta, mas não foi bem esse o resultado que ele teve.
Ele me moldou como uma marionete feminina, mas, ao invés de certificar que minha madeira não era oca ou de boa qualidade, trabalhou em mim do mesmo jeito. Cinzas de cigarro queimavam minhas pernas, minhas articulações tinham falhas: ou travavam, ou nem dobravam sequer. Fui lixada, deixada caída e me ensopava com o whisky que ele derramava sobre mim. Minhas linhas de marionete eram cheias de nós, e meu vestido feito à mão era torto, me dando o aspecto de desengonçada. E, pelo fato de ele ter me deixado cair diversas vezes, minha madeira começou a rachar por dentro.
Como Pinocchio, fui abençoada pela fada madrinha para virar uma menina de verdade. Meu criador me fez ir à escola, mas, como era oca por dentro, não queria preencher esse vazio com coisas fúteis como matemática. Preferia olhar pelas janelas, ver os pássaros voarem, analisar a tapeçaria à procura de rostos entre os desenhos e balançar as pernas, o que incomodava meus colegas. Minhas articulações mal feitas rangiam e faziam um barulho terrível. Não é como se isso me incomodasse, mas incomodava os outros.
No intervalo, nenhuma menina queria brincar comigo, já que eu mal compreendia as brincadeiras. Então, os meninos decidiram que eu seria um ótimo alvo para tiro ao alvo. Jogavam diversas coisas em mim: pedras, bolas e até chicletes, que eu não conseguia tirar do cabelo de lã.
Eu fui crescendo sem consciência ou qualquer tipo de afeto. A gente não compreende a maldade do mundo quando não tem alguém para nos guiar, então vivi como pude. Nunca fui a melhor aluna e nem a pior. Nunca tive amigos, mas também nunca faltava alguém para tirar sarro de mim. Em casa, meu dono nunca estava, então eu dormia sentada na prateleira que ele deixou para mim.
Quando a fada madrinha retornou e viu que eu me tornei uma boa mocinha, me fez ser de carne e osso. Minhas articulações não faziam mais barulho, eu tinha cabelo de verdade, e agora podia sentir dor de verdade. Foi um alívio no início. Eu achava que finalmente seria como os outros. Mas, mesmo assim, algo parecia não estar certo. Minha cabeça e meu peito continuavam ocos. Não era só o vazio, era como se algo essencial faltasse. Me pergunto se foi a madeira. Ou a falta de consciência. Talvez meu criador me fez mal feita demais para que eu fosse completa. Ou será que, no fundo, eu fui um erro?
Mesmo assim, eu tentava encontrar sentido. Passei a observar outras pessoas, ver como preenchiam seus próprios vazios. Algumas pareciam tão felizes e inteiras, outras tão despedaçadas quanto eu. Talvez o erro não estivesse na criação, mas no que fazemos com o que somos. Ou talvez… eu ainda esteja esperando a resposta.

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