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Alice

Oi, meu nome é Alice e sou uma boneca defeituosa. Como fiquei assim? Bem, venho de fábrica. Todas as bonecas falavam, eu mal conseguia formar uma frase. As bonecas sabiam brincar, mas quando eu tentava, ou era agitada demais para a festa do chá, ou muito lenta no pega-pega.

Já fui a diversos doutores de brinquedos. Exames e testes foram feitos para descobrir qual era o meu defeito, porque, por fora, eu parecia normal. Mas algo dentro de mim, dentro da minha cabeça, não estava correto. Em algumas partes, tinha engrenagens demais; em outras, de menos. Disseram que eu nunca seria normal como as outras bonecas.

Como as outras bonecas me evitavam, comecei a me distrair com a leitura. Lá, eu podia fingir ser pirata, fada e bruxa ao mesmo tempo. Mas, ao longo dos anos, até essa atividade começou a ficar solitária. Então comecei a desenhar. E até que desenhava bem. Nada como um Picasso ou um Leonardo da Vinci, mas eu era boa. Mesmo assim, até essa atividade perdeu a diversão.

Depois de anos, tentei novamente me enturmar com as outras bonecas. Mas sempre me sentia esquecida ou a segunda opção. Ouvia o que falavam de mim. E quando via uma delas sozinha, fingia que nem me conhecia. Então voltei a me isolar no meu mundo.

Meu mundo não doía até começarem as lembranças. Lembranças das chacotas e risadas. Da dor de cair ao ser empurrada. Da dor de ser ignorada. Amada por ninguém, nem mesmo pelo próprio fabricante.

Então me tornei Alice. A boneca solitária que ninguém queria tocar ou brincar. Sentada na estante, pegando poeira, que descia como lágrimas pelo rosto. Alice, a solitária.

One Comment

  • VINCENT.

    Parabéns pela ótima escrita. Tomara que a boneca um dia aprenda que a solitude é o abismo mais belo para mentes profundas e corações imensos.

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